As metrópoles, com a
Grande São Paulo, continuam crescendo baseadas na exclusão social e
discriminação do povo pobre. É o povo que mais trabalha na base da
produção social desse grande monstro. É o que pega o trem ou ônibus
lotado na madrugada e é super-explorado com o trabalho
desregulamentado, como o terceirizado. Essa população está engrossando
as favelas, ocupações, áreas de risco e irregulares, já que não tem
condições de pagar os caros aluguéis das capitais. Não existem planos
públicos de habitação para essa massa, que é obrigada a juntar tapumes
de madeira e ocupar terrenos vazios para conseguir ter um teto. Do
Estado só vêm projetos de habitação para a classe média que a obriga a
se endividar mais e enriquecer bancos e construtoras, como é o caso do
“Minha Casa, Minha Vida”, ou “Minha Dívida”. Para o povo só vem do
Estado a violência policial que invade as favelas, bate e mata esses
trabalhadores que são considerados como de uma raça inferior.
Agora,
o Governo Serra resolveu atacar mais uma vez o povo pobre. Quer
construir um parque na várzea do Rio Tietê e para isso irá despejar
mais de 5 mil famílias que vive na região. Por trás de um argumento
ambiental, a da recuperação do ecossistema que beira o rio, o governo
esconde a verdade: foi o Estado que destruiu toda a várzea e agora
culpa o povo fragilizado que vive às margens do rio pela degradação
ambiental. Foi o governo que instalou as marginais que cobriu de
concreto a várzea e retificou todo o rio, causando enchentes e
patrocinando a desastrosa política de transporte centrada nos carros
particulares. Além disso, sempre aprovou a instalação de empresas e
continuou a construir prédios públicos como a Estação da Sapesp em São
Miguel Paulista e o campus da USP-Leste. É curioso também que foram os
próprios caminhões a serviço da prefeitura e suas máfias que aterraram
áreas de várzea no Pantanal, no distrito de São Miguel Paulista, que
foram ocupadas em seguida pela população carente, muitas vezes até
pagando pelos lotes.
Agora o governo e a
prefeitura tratam de incriminar toda a comunidade pela ocupação
irregular e degradação ambiental do rio. Durante todo esse ano lançaram
forte campanha publicitária na região, inclusive nas escolas, dizendo
em um escandoloso jornalzinho que os moradores são criminosos e os
ameaçando de prisão.
Mais carros e asfalto: compensação ambiental e o incalculável impacto social
Como um alto funcionário da Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A.,
empresa estatal) afirmou em audiência pública na Assembléia
Legislativa, o parque faz parte da compensação ambiental pelas obras de
ampliação das vias da Marginal Tietê. Ou seja, para por mais concreto
na várzea do rio, o governo precisa plantar 180 mil árvores, para
compensar o grande palco para novas enchentes, querem deixar uma grande
área de escoamento da água na parte alta do rio, e quem paga o pato
novamente é o setor mais pobre da classe trabalhadora. Querem ampliar o
espaço para os carros, patrocinando ainda mais o uso de transporte
particular nas marginais - sendo essa obra muito pouco relevante para o
atual trânsito de São Paulo – e fomentam mais o caos nas ruas da
cidade. Muito mais propaganda vista a toda hora na televisão, focando
em 2010, ano de eleição presidencial.
O parque,
de acordo com o projeto, será baseado em áreas de recreação, com a
construção de uma ciclovia, quadras e uma estrada-parque para se andar
de carro. Nos mapas oficiais do projeto, assinados pelo Departamento de
Águas e Energia Elétrica da Secretaria de Saneamento e Energia do
governo estadual, percebe-se que a preocupação não é resgatar a várzea
do rio, pois muitas construções à beira do rio serão mantidas, como as
empresas Nitroquímica, de Antonio Ermírio de Morais, um centro de
armazenamento da Bauducco, recém-construí do, e a Sabesp, além de
instalações públicas, como escolas e o campus da USP em Ermelino
Matarazzo.
Sob esses fatos, e conhecendo o
tratamento que esses governos dão ao povo pobre, vemos que o objetivo é
limpar a área, como a “higienização” que já fizeram no centro. Todas
essas áreas estão sendo removidas violentamente pelo governo como o
Real Parque no Morumbi e por onde passará o Rodoanel, como em São
Matheus, só para dar alguns exemplos recentes. Muitas vezes usam um
método nazista de abordagem: oferecem o dinheiro da passagem para essas
pessoas voltarem para “suas terras”, ignorando o fato dessa massa
construir, com salários muito baixos, a “terra dos paulistas”. Apesar
de dependerem dessa massa, não a querem sob os olhos, a querem
escondida em guetos, de um jeito que os turistas da Copa do Mundo de
2014 não possam ver a realidade. O governo e os “investidores” querem
essas áreas “recuperadas”, ou seja, com valorização dos terrenos para a
classe média alta, especulação imobiliária e um belo parque para
passear de carro com seus filhos. Enquanto isso, a massa pobre, com
seus filhos, é empurrada para mais longe, onde se verão obrigados a
ocuparem outras áreas e recomeçar suas vidas. Mais impacto social para
a melhora da vida da parte alta da pirâmide social, seja para os que
vão lucrar com a revitalização, ou para os novos e bem sucedidos
moradores que viverão na beira de um belo parque.
A
política habitacional dos governos como o de São Paulo é essa: despejos
de favelas e áreas irregulares e especulação imobiliária. Atualmente
são mais de 740 mil pessoas que não tem onde morar na Grande São Paulo
(Déficit Habitacional, Ministério das Cidades, 2005). Enquanto isso,
são mais de 400 mil imóveis vazios só no centro de São Paulo, servindo
para a especulação imobiliária.
O movimento popular do Pantanal
O Jardim Pantanal, em São Miguel Paulista, tem uma história importante
de luta da sua comunidade. Precisaram lutar muito para garantir a sua
moradia e a urbanização da área, no fim dos anos 80. Em 1997, se
mobilizaram para acabar com a maior enchente que já houve na região,
quando ficaram mais de duas semanas debaixo d’água. Descobriram que
tinha sido o Governo do Estado o culpado, pois haviam fechado a
barragem da Penha para não encher de água a Marginal, ao custo de
deixar mais uma vez o povo pobre sem moradia.
O
MULP (Movimento de Urbanização e Legalização do Pantanal) representa
muito dessa luta e sempre buscou a conscientização e formação política
contínua da comunidade, além de fomentar e aglutinar experiências de
educação e cultura desse povo. Sempre estimulou a participação e a
democracia direta como forma de política para enfrentar os governos e a
exploração capitalista, seja na questão da moradia ou outros problemas
da comunidade.
A Terra Livre também está
participando ativamente dessa luta, trazendo sua experiência de lutas,
ajudando a politizar o debate da moradia e sobre os despejos e chamando
a população a se levantar e criar a organização necessária para essa
batalha. Mostramos a história da luta da classe trabalhadora contra a
exploração capitalista e comparamos com suas vidas concretas: os
governos têm compromisso com os ricos e sua classe e, se quisermos
garantir as moradias, teremos que enfrentar com uma política
independente e baseada na auto-organização do povo pobre.
No
Pantanal, assim como em diversos bairros e vilas que serão afetadas,
como a Vila Itaim e o Jardim Aymoré, as assembléias que discutem e
esclarecem o problema são freqüentes. O Pantanal tem representantes
votados em assembléia que já vinham se reunindo com o poder público,
através da subprefeitura de São Miguel Paulista. Nessas negociações
colocamos propostas que recuperariam a várzea e incluiriam a
comunidade. Do lado deles, só ouvimos demagogia e enrolação. Mas o
movimento está crescente, com novas lideranças surgindo das
mobilizações e das reuniões. O Governo do estado virá com a Justiça e a
Polícia dos ricos. Do nosso lado teremos resistência e o povo
organizado e formado para resisitirem a mais esse ataque dos
capitalistas e seus governos.