Henrique Acker
25-09-2009
O professor Daniel Arão Reis (História Contemporânea da UFF) tem utilizado em suas entrevistas e aparições públicas as expressões “Reformismo moderado” e “Reformismo radical”, para definir os governos não conservadores que emergiram na América Latina nos últimos anos.
Embora estejam fora dos padrões conhecidos, estas duas definições parecem válidas quando se analisa a política e o comportamento destes governos e seus governantes. No caso do grupo dos moderados se destacam Lula, Lugo (Paraguai), Michele Bachelet (Chile) e Cristina Kirschner (Argentina). Do outro lado, sem necessariamente estar em oposição, estão Hugo Chavez (Venezuela), Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador).
No essencial todos são mesmo reformistas, pelo menos não estão propondo nenhuma ruptura radical com a ordem política vigente. Mas na forma de lidar com as coisas os métodos e propósitos parecem bem distintos. Lula, Lugo, Bachelet e Kirschner operam mudanças dentro dos limites constitucionais impostos pelas elites de seus países. Pouco operam no cenário internacional.
Já Chavez, Morales e Correa encaram seus mandatos como uma espécie de ponte para atravessar as desigualdades econômicas, sociais e culturais de seus povos. Daí porque defendem e tratam de mudanças constitucionais que permitam avançar na construção de novas sociedades, mais próximas e fiéis aos interesses da maioria. Por isso, não têm medo de expor o desejo de uma América Latina mais integrada e independente, o sonho do grande libertador Simon Bolívar.
Bachelet é produto da Concertacion, uma espécie de frente política de tudo e todos que sepultou a Ditadura de Pinochet. Por isso mesmo, não mexe uma palha na estrutura social e econômica do país. Lugo ainda não disse bem a que veio e mesmo em seus limites segue como uma esperança para o povo paraguaio. Cristina é a continuidade de um governo que também não rompeu com a velha política econômica neoliberal, que arrasou a Argentina, apesar de enfrentar a oposição ferrenha dos grandes latifundiários. Lula é o que conhecemos: muita garganta e uma política para agradar gregos e goianos, transferindo renda a rodo para as classes dominantes e migalhas do Bolsa Família, salário mínimo e do crediário popular para as massas.
Na Bolívia, Morales enfrentou nas ruas a tentativa de divisão política do país, patrocinada por uma elite tacanha e reacionária. No Equador, Correa desmistificou a dívida externa, ao promover uma auditoria independente. Na Venezuela, Chavez avança em medidas sociais, políticas e econômicas e aos poucos vai promovendo uma ruptura da exclusão social a que o povo foi condenado pelas elites locais.
Os quatro primeiros não sofrem ataques tão duros e diretos, seja das elites de seus respectivos países seja da mídia ou do governo norte-americano. Já os três últimos são alvos preferenciais de uma campanha de difamação, patrocinada pelos grandes grupos de comunicação de seus países e das agências internacionais de (des)informação.
A crise de Honduras e das bases militares norte-americanas na Colômbia não só revelam as diferenças entre eles, mas também servirão de oportunidades para evidenciar caminhos e projetos distintos para “la nuestra América”.