Claudia Jardim
Enviada a Honduras
BRASIL DE FATO - 31-07-2009
A policía hondurenha reprimiu duramente a um grupo de manifestantes que sairam às ruas da capital Tegucigalpa nesta terça-feira para dar continuidade à jornada de protestos contra o golpe de Estado que destituiu o presidente hondurenho Manuel Zelaya.
Os policiais lançaram bombas de gás lacrimogêneo e dispararam contra os manifestantes que se concentravam em frente a um mercado no centro da cidade. Um professor foi baleado na cabeça e levado ao hospital, onde permanece em coma.
Cerca de 60 pessoas foram agredidas e em seguida presas. Entre elas o pré-candidato do Bloque Popular Carlos H. Reyes, que foi ferido na cabeça e teve o braço fraturado em consequência das agressões.
Os confrontos iniciaram na manhã desta quinta-feira quando cerca de dois mil manifestantes fecharam a principal rodovia de acesso à Tegucigalpa. Efetivos do Exército e da Policía dispersaram a manifestação com disparos e bombas de gás lacrimogêneo. Nesta oportunidade, a imprensa foi alvo de agressões “Com certeza a ordem hoje era impedir a difusão das imagens da repressão”, afirmou o cineasta hondurenho Oscar Estrada, que foi agredido por policiais. “Me bateram com o cassetete, pegaram minha câmara e a destruiram completamente”, afirmou.
Outros três jornalistas foram agredidos e tiveram seus equipamentos roubados pelos policiais. “ Isso é um sinal claro de desespero. O governo de Micheletti está contra a parede, estão perdendo força”, afirmou o advogado Race Tomé, do Partido Liberal que participava da manifestação.
Enquanto aumenta a tensão, o governo de Roberto Micheletti anunciou estar disposto iniciar um diálogo nacional para resolver a crise política.
Micheletti solicitou ao presidente da Costa Rica, Oscar Arias, mediador da crise, o envio de um observador para “cooperar com o início de um diálogo no país”. De acordo com o líder do governo interino, a iniciativa é uma resposta à proposta feita por Arias, que entre outros pontos, exige a restituição de Zelaya à Presidência.
O chamado ao diálogo nacional tem sido visto como uma manobra do governo Micheletti para ganhar tempo, com o intuito de arrastar a crise até as eleições de novembro.
O Congresso de Honduras criou uma comissão para discutir com setores da sociedade civil e camaras empresariais o Acordo de San José. A resposta oficial sobre o tema será apresentada na segunda-feira.
O Supremo Tribunal Eleitoral de Honduras já se declarou contrário a um dos pontos do acordo que propunha antecipar em um mês as eleições gerais convocadas para o dia 29 de novembro. A Procuradoria Geral também rejeitou o ponto que propõe a aplicação de uma anistia aos crimes políticos ocorridos antes e depois do golpe.
Pressão internacional
Exilado há dias na cidade nicaragüense de Ocotal, fronteira com Honduras, o presidente deposto, Manuel Zelaya, se reuniu nesta quinta-feira em Managua, com o embaixador americano em Honduras, Hugo Llorens.
Há dois dias, em uma primeira medida de pressão contra o governo de facto, o governo dos Estados Unidos suspendeu o visto de quatro funcionários do governo Micheletti. Entre os sancionados, está o juiz da Suprema Corte de Honduras Tomás Arita, que ordenou aos militares a detenção do presidente deposto, Manuel Zelaya, e o novo presidente do Parlamento hondurenho, Alfredo Saavedra. O porta-voz do Departamento de Estado, Ian Kelly, advertiu que todos os vistos dos funcionários do governo interino serão revistos.
Para o estudante Carlos Humberto Reyes, que teve o rosto desfigurado pelas agressões sofridas nesta quinta-feira, a postura da Comunidade Internacional, que condenou o golpe e não reconheceu o governo de Micheletti, é insuficiente.
“ Ainda não está claro que esse é um regime repressivo e ditatorial? Bastaria com aplicar sanções econômicas e os golpistas não resistirão”, afirmou.
Estima-se que ao menos 2 mil hondurenhos tenham cruzado
a fronteira com a Nicaragua no último fim de semana para apoiar ao
presidente deposto Manuel Zelaya, quem havia anunciado um regresso
apoteótico a seu país.